Capital Semente


BNDES seleciona empreendedores em estágio inicial
30/10/07



"Lançado no início do ano, o Criatec - Programa de Capital Semente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) - começa a dar nesta semana um passo decisivo para iniciar o processo de seleção das pequenas e médias empresas inovadoras, em estágio nascente, que receberão parcelas dos R$ 80 milhões reservados pelo banco para os próximos quatro anos. É quando o BNDES coloca sua assinatura no contrato com o Instituto Inovação e a administradora de Fundos Antera, pelo qual é instituída a figura do gestor nacional do Criatec.

Com o documento firmado, terá início a seleção dos seis gestores regionais. O Criatec terá foco nas cidades e regiões (de 100 a 200 quilômetros no entorno) de Belém, Fortaleza, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Campinas e Florianópolis. Todas elas são consideradas pólos de maior inovação no país e, no projeto Criatec, denominadas "núcleos de captação de oportunidades". O objetivo é incentivar projetos de inovação tecnológica, particularmente em Tecnologia da Informação, Biotecnologia, Nanotecnologia, Alimentos, Fármacos, Agronegócios, Novos Materiais e Mecânica de Precisão.

Os setores visados estão sendo chamados de portadores de futuro. "O programa é empreendedorismo na veia", resume Eduardo Rath Fingerl, diretor do BNDES para as áreas de Mercado de Capitais, Tecnologia da Informação e Processos, responsável no banco pelo Criatec. Ele esclarece que os gestores regionais serão selecionados pelo gestor nacional e passarão pelo crivo do Comitê de Mercado de Capitais do BNDES. Se tudo der certo, em seis meses - no segundo trimestre de 2008 - tudo estará operando. Fingerl lembra que Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Campinas têm seus núcleos em estágio mais adiantado de implantação.

Os gestores regionais serão os encarregados diretos da seleção das empresas beneficiárias, do desembolso do investimento, do monitoramento das aplicações do fundo e do posterior desinvestimento. A estimativa conservadora do BNDES é de que a demanda inicial para captar recursos do fundo seja de 200 empresas, número que pode bem saltar para 300 candidatas ao crédito. Se, desse universo, numa primeira etapa, forem selecionadas 60 empresas, será possível gerar cerca de três mil empregos de alta qualificação.

Pelas regras do Criatec (disponíveis em (www.bndes.gov.br/programas/outros/criatec.asp), uma empresa poderá receber no máximo R$ 1,5 milhão por quatro anos. É possível, de acordo com os resultados, haver uma segunda capitalização da mesma empresa pelo Fundo. Com base legal na Instrução n° 209 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o Criatec será um Fundo Mútuo de Investimento Fechado, cujas cotas poderão ser subscritas, além da BNDESPar, por outros parceiros, em especial a Finep. O Fundo investirá no mínimo 25% de seu patrimônio (R$ 20 milhões) em empresas "inovadoras em estágio nascente com grande potencial de crescimento", com faturamento anual de até R$ 1,5 milhão, e no máximo outros 25% (R$ 20 milhões) em empresas com receita anual de R$ 4,5 a R$ 6 milhões.

Entusiasmado diante do crescimento do fundos de capital de risco no país, Rath Fingerl explica por que os recursos do Programa Criatec são exclusivamente do BNDES: "Nada impede que outros investidores venham alocar recursos no programa, mas a missão é nossa, porque são empresas num estágio que ainda requer o Estado", diz. A categoria dos fundos de capital de risco engloba desde os de capital semente (para empresas pequenas e muito iniciantes) até os de private equity (em que grupos maiores aportam capital a empresas em crescimento, por meio de fundos, com direito a acompanhamento da gestão), passando pelos de venture capital (para empresas de porte médio, em fase de expansão, mas com dificuldade de se capitalizar via mercado bancário).

Rath Fingerl recorda que o BNDES participou inicialmente de fundos de private equity, hoje já plenamente assumidos pelo mercado privado. O banco costuma entrar com até 30% dos recursos em fundos de Venture Capital. Hoje, o BNDES participa de oito desses fundos, seis dos quais já ativos e dois em fase de seleção de gestores. Fazendo uma comparação com o novo alvo do banco, ele diz que a principal diferença é o risco. "Quanto mais você desce na cadeia de empresas em estágio nascente, maior é a dificuldade de avaliação sobre o futuro do projeto, o que aumenta o grau de volatilidade", explica

O projeto Criatec nasceu da constatação de que eram insuficientes os mecanismos financeiros privados e públicos de apoio às empresas nascentes voltadas para inovação. Com uma quantidade enorme de encubadoras de empresas vinculadas a Universidades e Institutos de Pesquisa (cerca de 300 nos cálculos do diretor do BNDES), e um número de artigos científicos crescentes em publicações internacionais, o Brasil clama por mecanismos de incentivo a essas "sementes".

"Não é uma demanda, é uma agonia por recursos", brinca o diretor. A falta de apoio do Estado pode empurrar o pessoal criativo, inovador para outros países. "Sempre há visitas de missões estrangeiras a nossas incubadoras de tecnologia. Elas são alvo de atração para o exterior. É a trágica evasão de cérebros, que já está acontecendo com o a Índia e a China", diz.

A participação do Banco, aposta Fingerl, ajudará a transformar o investimento nacional direcionado para ciência e tecnologia em produtos e processos que farão parte dos diferentes setores da economia. Inspirada em iniciativas e produtos financeiros semelhantes dos Estados Unidos, Israel e Finlândia (para ficar em exemplos mais bem sucedidos), o Criatec pretende propiciar a empreendimentos jovens, em geral de pesquisadores, as condições para que eles se fixem e ascendam na cadeia de produção de bens e serviços.

No Japão e na Alemanha, informa Rath Fingerl, há projetos em estágio similar ao do Criatec. "A meta é fazer com que a inteligência brasileira se transforme em desenvolvimento para o Brasil e não para outros países", diz. O banco entra com o "selo" da instituição, faz deslanchar os projetos e atrai capital privado, projeta ele. "Entendemos que este setor é uma jazida, a ser irrigada por capitais privados num futuro próximo". "

(Ana Cristina C. Machado, para o Valor)


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